quinta-feira, 13 de agosto de 2020

Matéria publicada no site Fauna News

Roda de Passarinho percorre o Brasil levando brincadeiras e informações sobre ambiente e Ciência às crianças

Crianças sentadas em roda

Roda de Passarinho no Instituto Oca Brasil em Alto Paraíso de Goiás – Foto: Simone Guimarães

Jornalista com MBA Executivo de Administração e especialização em Comunicação Corporativa Internacional. Observadora de aves e escritora de livros infantojuvenis com temática voltada à conservação da fauna
educacaoambiental@faunanews.com.br

Pouco tempo depois de ter lançado meu primeiro livro infantil, Topetinho Magnífico (Ed. Melhoramentos, 2012), recebo uma mensagem do fotógrafo e designer gráfico Renato Rizzaro, que até então não conhecia, perguntando se eu poderia doar alguns exemplares do livro para serem usados em um programa com crianças.

Logo me animei, pois sempre encarei que a finalidade maior de escrever livros infantis seria que eles chegassem a um maior número de leitores mirins. E interessei-me por conhecer a aventura para onde Renato levaria o Topetinho, um projeto chamado Roda de Passarinho.

Uma Toyota, muitos livros e fotos de aves. Com basicamente esse arsenal, o casal Renato Rizzaro e Gabriela Giovanka tem percorrido, há quase 20 anos, o Brasil, para educar de forma lúdica crianças de diversas regiões.

Tudo começou – conta a administradora especializada em Naturologia, Gabriela – com a visita frequente de crianças da comunidade onde a Reserva Rio de Furnas, em que moravam, está inserida, no município de São Leonardo, interior de Santa Catarina. A área foi adquirida pelo casal em 2001 e transformada em uma RPPN, ou seja, em uma reserva particular do patrimônio natural. “Uma visita recorrente era a nossa vizinha Ana, então com 7 anos.”, lembra-se Gabriela. Segundo ela, foi vivendo na Reserva que passaram a estudar a natureza, em especial a observação de aves.

Por que Roda de Passarinho?, pergunto, curiosa. “Percebemos que as aves são um símbolo muito forte de beleza, curiosidade e liberdade para todas as idades, e esses são sentimentos que experimentamos durante o tempo em que vivemos na Reserva”, explica Gabriela. Concordo plenamente com eles.

Sentados em frente à casa, na cozinha ou caminhando pelas trilhas que mantinham, conversavam animadamente com as crianças sobre a água pura do rio, os animais que se aproximavam da casa, porque era importante cuidar das árvores e quais os nomes das aves avistadas que descobriam e registravam por meio de fotos, gravação dos cantos e pesquisa nos livros.

“Percebemos que as crianças adoravam essas conversas tanto quanto nós e resolvemos oferecer um pouco do nosso tempo para a escola multisseriada de São Leonardo”, diz Gabriela. Aprovada a ideia pela Secretaria Municipal de Educação e pela professora da escola, passaram a dedicar uma tarde por mês para o encontro, que também passou a incluir as crianças que frequentavam o PETI – Programa de Erradicação do Trabalho Infantil, com sede em Alfredo Wagner (SC).

Depois, em parceria com a prefeitura e o Colégio Estadual de São Leonardo, realizaram uma exposição de fotografias de animais e de paisagens da Reserva Rio das Furnas, que recebeu visitas monitoradas dos estudantes e professores da cidade.

Nascia assim a Roda de Passarinho.

“Nosso objetivo é a sensibilização para a importância da recuperação e da conservação das florestas, orientados por nossas experiências, pesquisas bibliográficas e auxílio de pesquisadores e amigos que frequentavam a Reserva”, diz Gabriela.

Pé na estrada
Em 2010, Renato e Gabriela deixaram a Reserva e resolveram levar a Roda de Passarinho para outros lugares do Brasil. “Estávamos com um arquivo fotográfico e sonoro muito bom das aves da Floresta Atlântica. Queríamos conhecer os outros biomas e as comunidades que neles vivem”, contam.

O primeiro destino, em setembro de 2011, foi o Pantanal, “esse incrível mundo do movimento das águas e aves”, na definição de Renato. Na bagagem, além de fotografias, alguns materiais coletados nas trilhas da Reserva, como sementes e penas; uma tarrafa especialmente feita para a Roda; flautas; áudios de cantos de aves; e livros infantis sobre aves, doados por amigos, para serem distribuídos entre as crianças e nas escolas. Isso sem mencionar uma lista de aves a serem observadas e fotografadas com a ajuda de guias e amigos.

A partir dessa experiência, o roteiro foi ampliado nos anos seguintes para a Amazônia, o Pampa, o Cerrado, a Caatinga e, por último, para o litoral, para conhecer as aves costeiras.

Professora e alunos mostrando fotos de aves
A professora Neri e seu Antonio do Boto juntos com a turma da escola na comunidade de Igapó-açú (AM) – Foto: Renato Rizzaro

Antecedem as viagens muita pesquisa: listas de aves, contatos com biólogos, guias e a orientação do amigo ornitólogo Vítor Piacentini. “Pesquisamos os hábitos, a alimentação, o habitat e cantos e entramos em contato com pessoas, escolas e instituições para o possível agendamento das Rodas nas cidades em que passamos. Solicitamos permissão para entrar em parques nacionais com possibilidade de hospedagem e por aí vai…”, explica Renato.

Essas expedições são financiadas com o seu trabalho e com a confecção dos pôsteres das aves, que vendem em uma loja virtual. A exceção ficou por conta da expedição à Caatinga, realizada através de financiamento coletivo.

“Com o passar do tempo, muitas pessoas passaram as nos receber em suas casas e contribuíram para a realização da Roda de Passarinho em diversas comunidades e lugares onde não teríamos como passar”, diz Gabriela.

Público e materiais
O público é constituído principalmente de crianças e jovens de 7 a 12 anos, estudantes do ensino básico e fundamental, de escolas públicas, com a presença de professores e, quando possível ,com convidados da comunidade. Já houve Roda com grupos de professores e de estudantes universitários de cursos de Ciências.

A Roda de Passarinho conta com a distribuição de fotos (originais, em papel fotográfico no formato 13×18 cm) de paisagens, animais, plantas e – claro! – aves, que circulam de mão em mão, em formação de roda, com a atenção voltada para os nomes, onde são encontrados, o que comem, etc.; além de uma atividade física, como o alongamento (sugerindo a observação da postura e comportamento das aves) e orientação para a observação das aves em seu habitat, estimulando o silêncio e intercalando os cantos, em playback. Nessa atividade, as crianças tentam adivinhar quais aves estão cantando e aprendem sobre a importância da identificação das espécies através do som – para a ciência e os observadores de aves.

Crianças deitadas em roda no chão
Atividade realizada na Fundação Casa Grande, no Crato (CE,), em 2015 – Foto: Roda de Passarinho

Outras atividades realizadas são a distribuição de sementes secas, cápsulas de sementes, flautas de taquara, etc., com objetivo de demonstrar a interação de todos esses elementos com os bichos, especialmente as aves; e a brincadeira da tarrafa de bola, que busca elucidar a importância do respeito entre as diferenças e a cooperação. “A Tarrafa de Bola, atividade adaptada dos Jogos Cooperativos, finaliza a Roda de Passarinho e busca elucidar a importância do respeito entre as diferenças e da cooperação para a realização de um objetivo”, explica Renato.

Como reagem as crianças a tudo isso? Com encantamento e muita curiosidade, assegura Gabriela.

“Um aluno, certa vez, ao ser questionado ao final da Roda sobre o que mais havia gostado, pensou alguns segundos e falou, objetivo e direto: pau seco! Após um breve silêncio dos demais participantes, completou triunfante: porque adoro pica-pau e, sem pau seco não tem ninho nem comida para pica-pau. As reações podem ser incríveis, não é mesmo?”, recorda Renato.

Recepção
“Até hoje só temos boas recordações dos locais onde passamos com a Roda de Passarinho e cada uma delas tem uma história emocionante a ser contada”, diz Gabriela, lembrando-se da pequena Vila Rayol, em Itaituba (PA), vizinha do Parque Nacional da Amazônia.

“Ali, nas margens do Tapajós, aconteceu a terceira Roda de Passarinho da Expedição Amazônia. O pequeno vilarejo – matriarcal – estava sendo ponto de encontro de equipes de prospecção de hidrelétricas que seriam construídas naquela parte do rio. Chegamos de repente e todos os visitantes ou eram pesquisadores ou contratados pelas empresas de prospecção. Procuramos a líder comunitária, explicamos nossa intenção e fomos aguardar a reunião dos alunos, professora e convidados à sombra das árvores, à beira do Tapajós. Pouco a pouco, a roda foi feita e iniciamos nossa apresentação. Logo apareceu o primeiro pássaro e outro e as pessoas foram chegando, empolgadas, mostrando o que conheciam dos bichos do local. Finzinho da tarde, fomos dormir e, na manhã seguinte, fomos recebidos por uma galerinha da escola que nos trouxe desenhos e redações feitos para nos presentear. Aí a gente amoleceu de verdade com tanto carinho.”, lembra-se.

Pedra de Vila Rayol (PA), lugar onde a comunidade se reune para admirar o nascer do sol – Foto: Gabriela Giovanka

E agora, com a pandemia?
Tudo suspenso, diz Gabriela, citando os planos para o futuro: encontrar um lugar para cuidar e muitas Rodas de Passarinho.

“Por enquanto, é preciso garantir que todas as crianças estejam seguras.
Seguimos apresentando nossa lojinha virtual para conseguir recursos, seguimos elaborando guias de aves para parques, municípios e parceiros, e com uma vontade imensa de botar o pé na estrada!”, completa.

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