quarta-feira, 6 de maio de 2015

Um relato emocionante sobre a Roda de Passarinho


DIÁRIO DE BORDO: RODA DE PASSARINHO 
por Ralzinho Carvalho 

Uma das coisas mais legais que aconteceu comigo no ano passado foi ter a oportunidade de conhecer um belíssimo projeto que mescla educação ambiental, preservação da fauna e flora e o desenvolvimento de um olhar atencioso à natureza que nos cerca. Trata-se do “Roda de Passarinho, projeto este que é encabeçado pelos incríveis Renato Rizzaro e Gabriela Giovanka, “donos” da Reserva Rio das Furnas – e escrevo donos entre aspas, pois através de suas ações e de demonstrações de afeto à natureza, ficou mais que claro que eles não se sentem proprietários de um pedaço de terra, mas sim afortunados de poder desfrutar de um lugar tão bonito. A Reserva Rio das Furnas é classificada como RPPN, isto é, uma Reserva Particular do Patrimônio Natural, título esse completamente compreensível a partir do momento em que eles, durante a roda, distribuem fotos e registros desse local. Deleite não só para biólogos, mas para qualquer pessoa com o mínimo de apreço à natureza, a reserva conta com um número incrível de espécimes de animais e plantas e que provavelmente foi o propulsor para que Renato e Gabriela pudessem expandir novos horizontes e procurar mais sobre a fauna e flora de outros locais, além de levar um pouquinho daquilo que eles possuem no seu quintal para o Brasil.
Definitivamente eu não posso morrer sem visitar esse lugar, sério. Foto por Renato Rizzaro
Definitivamente eu não posso morrer sem visitar esse lugar, sério.
Foi no Parque das Dunas, berço representativo de nossos esforços em preservação ambiental – apesar de que, vez ou outra é palco de problemas em relação às possíveis ações de desmatamentos que implicaria num terrível desequilíbrio ecológico – que demos início a uma série de atividades coordenadas pelo casal, que em tempos de aridez de estratégias eficazes de ensino-aprendizagem configuram uma espécie de bálsamo nesse aspecto. Aliás, é difícil não ficar consternado ao se dar conta que nenhum dos dois possui diploma em docência, embora ambos sejam de uma sapiência e clareza ao falar de fazer qualquer docente se espelhar como profissional e como pessoa.
Todas essas fotos que temos em mãos foram registradas pelas lentes do Renato
Todas essas fotos de aves que temos em mãos foram registradas pelas lentes do Renato.
Renato é um fotógrafo extremamente competente. As imagens captadas através de suas lentes revelam uma técnica apurada e é quase como estar ali, no exato tempo e espaço de onde aquele bicho ou aquela planta fora registrado. Sua sabedoria é daquelas de invejar a qualquer biólogo em formação. Apesar de não se ater tanto aos nomes científicos, Renato consegue distinguir nomes e sons – até o mais indistinguível canto de um passarinho para alguém mais desatento como eu, não passa despercebido pelos ouvidos dele e de Gabriela. E por falar nela, Gabriela é uma dessas pessoas que encantam qualquer um: possui uma doçura ao falar que facilmente nos remete as professoras dos nossos primeiros anos escolares – quem nunca teve uma professora tão doce que mesmo numa fase em que as lembranças sejam tão escassas, jamais nos esquecemos? Logo, não é tão difícil imaginar Gabi em um projeto tão fascinante e que lida tão diretamente com crianças nas mais diversas faixas etárias.
Numa espécie de “ciranda do saber”, somos inclinados a nos reunir em uma roda. Como docente, sei bem a importância que um “círculo” em sala de aula tem no processo de ensino-aprendizagem: conseguimos visualizar todos os rostos, falar olhando diretamente nos olhos e debater com mais facilidade. Assim, a roda de passarinho sugere o mesmo, onde todos tem oportunidade de falar, de ver, de ouvir e de sentir. Nesse ínterim, Renato e Gabi realizam aquilo que fazem de melhor: ensinar. Através de fotos, objetos, áudios e dinâmicas, a natureza que nos parece tão distante, lá no sul do país, torna-se palpável. E não é só o tato que é ativado. Todos nossos sentidos são extremamente aguçados pela dupla: nossos olhos enchem-se com as imagens deslumbrantes, nosso olfato consegue captar os diversos cheiros daqueles objetos achados no quintal de casa e nossa audição é ativada pelos sons gravados dos passarinhos. E arrisco até mesmo dizer que não é tão difícil assim sentir o gosto dos frutos descritos de forma tão fidedigna. Dessa forma, a “Roda de Passarinho” não é tão somente uma experiência didática: trata-se de uma experiência extremamente sensorial.
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Como desbravadores que são, Renato e Gabi não poderiam sair daqui sem levar um pouquinho de nosso bioma. E eu tive a oportunidade de juntamente a eles, alguns colegas do PIBID (um projeto de iniciação à docência), os três professores orientadores do projeto (os incríveis Marlécio, Midori e Josivânia) e alguns supervisores das escolas participantes de participar de uma viagem de campo para a Vila de Gargalheiras, em Acari. Essa expedição teve como intuito conhecer a nossa caatinga e registrar as aves desse local.
Sortudos <3
Sortudos <3
Ao descer do veículo que nos trouxe, a imagem inicial foi de saltar os olhos. A formação rochosa ao redor do açude de gargalheiras é de uma beleza ímpar e que infelizmente nenhuma das fotos registradas pôde abarcar em uma imagem tamanha magnitude. Com um cartão de boas vindas desses, não poderíamos esperar nada menor que isso para o dia seguinte.
Precisa falar mais alguma coisa?
Precisa falar mais alguma coisa?
Numa agenda já pré-definida, o nosso dia iniciaria antes mesmo de ser “dia”. Às 04h30min da manhã partimos em direção aos diversos locais que compõem o cenário da vila juntamente a um guia. Passamos boa parte do tempo admirando as aves em um local que compreendia diversas árvores e consequentemente diversas espécies de aves. Corrupião, carcará, tesourão, beija flor preto, casaco de couro, pato do mato, garça branca, pega, concriz, sabiá, bem-te-vi, sibite, jandaia e o galo de campina foram algumas das aves que visualizamos, muitas delas através de binóculos que facilitaram esse processo.
Lindo, né? Experimenta acordar às 4:30 da manhã. (ok, é extremamente recompensador)
Lindo, né? Experimenta acordar às 4 da manhã. (ok, é extremamente recompensador)
Em seguida, fizemos uma trilha de cerca de 3 km em meio à caatinga, onde além das aves pudemos ver também a flora própria desse bioma, a vegetação seca, e claro, sentir o clima extremamente árido. Porém, qualquer cansaço inerente às condições climáticas e o sol escaldante foram amenizadas com o nosso prêmio ao fim da trilha. Com pose de oásis, o Rio Acauã nos dá aquela sensação de miragem que geralmente vemos em produções audiovisuais: parece ilusão e é quase como uma coca-cola no deserto. Mas é extremamente real. E é de encher os olhos e de revigorar a energia para a nossa volta ao ponto inicial.
Vocês não tem NOÇÃO da beleza disso!!!!!
Vocês não tem NOÇÃO da beleza disso!!!!!
Sério!!!!
Sério!!!!
Sabemos das dificuldades intrínsecas ao ensino de ciências na nossa atual conjectura. Sabemos também como infelizmente ainda é difícil trazer para sala de aula algo que está lá fora, muitas vezes no nosso quintal. Mas Renato e Gabi provaram como é possível transmitir esse conhecimento que transita entre o teórico e o prático de uma forma extremamente simples, mas igualmente eficaz. Com a ajuda desses dois incríveis seres humanos, despertei um lado meu adormecido há tanto tempo, talvez por causa dessa era tecnológica que vivemos: um olhar atento, permissivo, demorado e apaixonado pela natureza. A capacidade de enxergar as coisas mais simples, mas que carregam um valor que não pode ser descrito, além da possibilidade de explorar os mais diversos assuntos diante da nossa vasta natureza. Sendo assim, não consigo contar quantas coisas aprendi e quantas poderei aplicar com meus alunos. Como biólogo e professor, cresci muito ao longo desses três dias acompanhando essa dupla. Mas foi como ser humano que cresci ainda mais.
A cara da felicidade <3
A cara da felicidade <3
:')
:’)
E como nosso intuito aqui é mostrar as potencialidades e relações com o ensino de ciências, vou finalizar mostrando um pouco do que conseguimos realizar com o que aprendemos com essa experiência maravilhosa. Os nossos frutos.
Assim, produzimos um estande na CIENTEC (uma “feira de ciências” universitária que ocorre anualmente na UFRN) com a temática toda em cima dessa aventura. Criamos um ambiente que remetesse a caatinga, com jogos didáticos e dinâmicas de acordo com o que vivenciamos. Além disso, produzimos cartões postais para serem enviados por nossa conta pelos correios.
Mamãe disse que era o estande mais bonito de todos <3
Mamãe disse que era o estande mais bonito de todos <3
Todos os cartões-postais foram produzidos com registros do Renato Rizzaro
Todos os cartões-postais foram produzidos com registros do Renato Rizzaro
E foi um sucesso. Nosso pavilhão ficou sempre movimentado, os visitantes se encantaram com nossa ambientação e responderam prontamente ao nosso pedido de parar um momento, sentar e escrever um cartão-postal para alguém querido. (Ou para a família toda, como o caso de um senhor que mandou TRINTA E CINCO!!! de uma vez)
E mais que isso, foi extremamente emocionante. É aí quando você percebe que está fazendo aquilo que realmente gosta ao conseguir produzir algo tão bonito em cima de algo aparentemente simples e banal. Fica o eterno agradecimento ao Renato e a Gabriela pela oportunidade e aos orientadores do PIBID, Marlécio, Midori e Josivânia, por terem convocado essa dupla. Tenho certeza que o Roda de Passarinho foi de grande valia para todos nós que participamos e irá ainda ecoar por muito tempo. Como o canto dos pássaros.
Quem tiver interesse em saber um pouco mais sobre o projeto, pode clicar aqui e aqui para assistir alguns vídeos produzidos pelo pessoal do Laboratório de Tecnologia Educacional da UFRN. Ficaram lindos e você ainda tem a oportunidade de rir com isso aqui:
As coisas que a gente faz por amor a ciência...
As coisas que a gente faz por amor a ciência…

Até a próxima! o/

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